Aspectos da Comercialização de Produtos Agroextrativistas[1]
Este artigo é uma análise
resultante da observação e prática das ações de comercialização de micro,
pequenos e médios empreendimentos, principalmente aqueles sediados na Amazônia
Legal.
No contexto amazônico, no quesito
“negócios sustentáveis”, a maioria dos empreendimentos é de pequeno porte
notadamente impelidos ou estimulados a fornecer para mercados consumidores de
matéria-prima mais dinâmicos. Assim, temos de um lado uma cadeia de fornecimento
que com inúmeras deficiências, seja da ordem organizacional, produtiva e
financeira. De outro, uma conjunto de empresas dispostas a atuarem dentro dos
padrões clássicos de compra e venda.
Para conciliar esses dois pólos é necessário promover a organização
interna, reestruturação setorial e, principalmente, arranjos produtivos locais
para aumentar a oferta de produtos, melhorar processos produtivos com acréscimo
de qualidade e diminuir custos de produção, aumentar as possibilidades de
parcerias com a distribuição, garantir estabilidade do fornecimento, deixando
espaço para criação de marcas próprias – com identidade regional, local -,
constituição de mecanismos de financiamento da produção e beneficiamento.
Além disso, outras ações
indiretas podem colaborar para obter resultados positivos. Uma dessas ações é o
aumento da capacidade dos atores sociais envolvido de influenciarem na
definição de políticas públicas.
Nesse enfoque, alguns produtos
são mais dependentes dessas ações para se consolidarem no mercado. A Castanha
da Amazônia necessita de articulação de vários pequenos e médios
empreendimentos para atender o mínimo dos pedidos do mercado interno. Mesmo que
se caminhe na direção da industrialização no território de origem da matéria
prima, devido a interdependência, torna-se vital o consórcio econômico para a
agregação de valor, pois a produtos mais elaborados tais como biscoitos,
farinha ou óleo prescinde da especialização dos atores econômicos da cadeia
produtiva.
A piscicultura comercial e empresarial
abre espaço para o surgimento de outros setores produtivos, tais como: o couro
de peixe e ração para animais que são possíveis com planejamento de um arranjo
produtivo local e com foco na estruturação econômica e produtiva (construção de
tanques, frigoríficos, produção de ração e alevinos).
As polpas de frutas – originárias
principalmente de SAF’s - sucos e concentrados que necessitam de métodos de
tecnológicos de conservação para preservar as características físico-químicas,
o que nem sempre é possível ou viável para pequena escala de produção, logo
para lograr sucesso, os empreendedores devem atuar em complementaridade com
outras empresas, em geral maiores e com capilaridade nacional, num sistema
cooperativado ou sistema de redes de comercialização.
As novas tecnologias de
exploração e beneficiamento local necessitam uma maior articulada de modo a
envolver elementos de pesquisa, assistência técnica e extensão rural como é
caso do látex natural que além da organização dos produtores em torno de suas
entidades pressionam as organizações a mudarem internamente que, por sua vez,
levam-nas a solicitarem apoio de outras organizações que tenham tecnologia,
conhecimento ou acesso aos novos produtos.
Em outros casos (cacau e guaraná
orgânico), os arranjos produtivos podem simplesmente representar a organização
de pequenos produtores para obtenção de escala, volume e certificação orgânica
a fim de atender uma determinada ou determinadas demandas empresariais, que do
mesmo modo, dependem da atuação de outras instituições que compõem o
“agronegócio florestal”.
De modo geral, trata-se de
desafios que os produtos do agro-extrativismo tradicionalmente produzidos e
ofertados enfrentam. Contudo, caminhar no rumo da viabilização da oferta de
produtos procurados, mas ainda não ofertados em quantidade e qualidade
suficiente tais como, sementes para biojóias, óleos vegetais, plantas
medicinais fibras para artesanato, madeira certificada de comunidades é um
desafio atual. Neste aspecto, investimentos em manejo sustentável, certificação
florestal e capacitação das comunidades agro-extrativista torna-se fundamentais
para se alcançar efetividade de qualquer plano de expansão da oferta de
produtos florestais.
Análise
de mercado para os produtos “estrelas” da Amazônia.
1.
Frutas Frescas e Polpas de Fruta
Principais produtos: Cupuaçu, Açaí, Bacuri, Graviola, Uxi, Camu-camu,,
taperebá.
Mercado:
Estabilizado para os empreendimentos que dispõem de condições mínimas para
atingir mercados nacionais, notadamente o sudeste e nordeste brasileiro, os
demais empreendimentos atendem mercados locais embora possam atingir novos
mercados se investimentos em ativos fixos forem realizados, grande, baixo valor
agregado, organizado e ávido por novidades á medida que surgem possíveis investidores
interessados em transformar essas frutas em bebidas isotônicas, refrigerantes,
sorvetes e etc.
Desafios: Produção com qualidade e produtividade, pois as áreas de
plantio de espécies amazônicas se tornou possíveis nos estados do sudeste e
nordeste por meio da tecnificação da agricultura, criação de um “consórcio” que
certifique a origem do produto como amazônico a fim de diferenciá-lo no
mercado, cadeia de frio organizada e distribuição.
2.
Madeiras com certificação social e ambiental do FSC ou objeto de manejo
sustentável comunitário
Produtos: Aproximadamente 80 espécies, tanto de terra firme
quanto de várzea, incluindo Jatobá, Mogno, Cedro, Freijó, Samauma, Paricá,
Tatajuba, Massaranduba, Aquariquara, Cumaru, Cerejeira (Torresia Acreana), Tauari,
Virola, etc.
Mercado:
Demanda pelo produto tem crescido tanto para atender o mercado interno quanto
para o mercado externo, a industria de
produção de bens finais busca essa matéria prima para produzir principalmente
móveis e casas, o mercado é promissor tanto para empreendimentos de grande
quanto de pequeno porte, alto valor agregado.
Desafios: Dificuldade de atingir a produção sustentável,
competição de madeira predatória com preços aviltados, o volume da produção de
madeira certificada como manejo comunitário não apresenta condições de atender
a demanda e mercado políticas públicas
desfavoráveis.
3.
Farinhas
Produto:
Mandioca (d'água), Pupunha, etc.
Mercado:
Estabilizado, com clara tendência a regionalização sendo possível arranjar a
produção da farinha amazônica em torno de uma identidade do produto visando
aumentar valor agregado e aumentar a participação de vendas em outros mercados.
Desafios: Produção com qualidade, padronização, marketing, escala
e distribuição.
4.
Fibras, Cipós e Outros
Produtos:
Piaçava, Arumã,
Curauá, Cipó-titica, Jarina (marfim vegetal), Cebolão, Timbo-açu, Timbori,
Graxama, Cipó-jipioca, etc
Mercado: Há procura por parte de artesãos e lojistas da região
sudeste, principalmente os estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Os preços da
matéria prima são muitas vezes desconhecidos sendo estipulados a partir do
confronto do comprador e fornecedor..
Alto
valor agregado através de outros produtos.
Definir
e atingir uma produção sustentável, entender fibras e cipós como uma linha de
produtos passível de rentabilidade e sustentabilidade, treinamento para o
beneficiamento e confecção de outros produtos.
5.
Castanha-da-Amazônia (ou do Pará)
Produtos: Castanha inteira, com ou sem casca, ou picada
Mercado:
Estabilizado, grande, procura concentrada no segundo semestre de cada ano e
oferta maior no primeiro semestre, número grande de pequenos atravessadores.
Desafios: Eliminar intermediários desnecessários por meio de
contratos de vendas de médio e longo prazo, parcerias e arranjos produtivos
locais com cooperativas agroextrativistas
para ganhar escala e diminuir custos entre, principalmente de
transporte, aumentar o beneficiamento local com vistas a agregação de valor e
diminuição de contaminações com o excesso de manuseio e transporte e marketing.
6.
Produtos Artesanais
Produtos: Vasos, cestarias, brinquedos, bijouterias e utensílios
indígenas, artefatos em borracha, cerâmicas marajoaras, etc.
Mercado: Em crescimento, baixo valor, em geral os potenciais
compradores estão sediados na região sudeste proprietários de lojas de produtos
artesanais que em sua maioria desconhece a lógica de relacionamento com
comunidades tradicionais e indígenas da Amazônia.
Desafios: Distribuição através de criação de espaços de
comercialização coletiva e de múltiplos empreendimentos amazônicos, organização
e produção constante.
7.Óleos
essenciais e essências
Produtos:
Aproximadamente 20
espécies, para usos cosméticos, medicinais e alimentícios, incluindo Copaiba,
Andiroba, Cupuaçu, Babaçu, Castanha, Pimenta Longa, Pau-Rosa, etc.
Mercado: Receptivo por novos produto, mas oligopolizado que gera
incerteza e insegurança para as comunidade produtoras embora o produto tenha
alto valor agregado no local.
Desafios: Dificuldade em atingir a produção sustentável, melhora
no beneficiamento e aproveitamento dos resíduos incorporando ou re-arranjado
atores econômicos locais para produção de sub-produtos, melhor conhecimento das
características organoléticas dos produtos, elasticidade, relacionamento entre comunitários
e empresas compradoras.
8. Palmito
Pupunha
(cultivado), Açaí e em alguns casos Babaçu (manejados)
Mercado: Com variações de consumo ao longo do ano, pouco sensível
à questão da origem amazônico, no caso do interno, o que difere um pouco no caso
do externo.
Desafios: Produção sustentável, industrialização com qualidade,
marketing adequado, formação de consórcios para venda do produto diminuindo,
competição predatória com alta aceitação (jussara).
9.
Peixes Ornamentais
Produto:
Aproximadamente 40
espécies
Mercado: Consolidado e alto valor agregado, exportação.
Desafios:Produção sustentável, estruturação de negócios amazônicos
com esse foco e logística, tráfico de espécies.
10.
Plantas Ornamentais
Produto: Aproximadamente 60-80 espécies epífitas (bromélias,
samambaias, orquídeas), philodendrum e árvores para paisagismo
Mercado: Estabilizado, com tendência ao crescimento. Grande, alto valor agregado
Desafios:
Produção sustentável, organização de empreendimentos amazônicos ou aglomerados
de produtores para fornecer ao mercado, logística, certificação e distribuição.
11.
Mel
Produto:
Mel de abelha
nativas ou africanas
Mercado: Grande em relação a oferta atual, estabilizado, baixo
valor agregado, mas para o certificado como orgânico a agregação é alta. O
mercado é extremamente sensível este produto quando certificado.
Desafios: Produção sustentável com abelhas nativas, estimulo e
identificação de novos produtores para aumentar a oferta, marketing,
certificação e distribuição.
12.
Temperos, Aromas e Corantes
Produtos: Pimenta Cumaru, Açucena, Gergelim, Tucupi, Urucum,
Cumaru de Cheiro, Cumacai, Apuí, Casca Preciosa, etc.
Mercado: Grande com abertura para novas utilidades do produto
(artesanato, medicina, alimentação), alto valor agregado. Apesar de que o
urucum e gergelim possuem fornecedores fora da região amazônica.
Produção: Produção com
qualidade e sustentável,organização de cadeias fornecedoras locais
distribuição, desenvolvimento de novos produtos.
13.
Guaraná Orgânico
Produto:
Guaraná nativo em
pó ou em barra.
Mercado: Grande e com concorrência com o guaraná produzido em
áreas no nordeste (Bahia) e com baixo
valor agregado.
Desafios: Produção com qualidade e sustentável, certificação
orgânica,arranjos produtivos locais para lançamento de novos produtos cuja
matéria-prima seja o guaraná amazônico, distribuição e marketing.
14.
Látex natural
Produtos:
Borracha nativa
bruta ou defumada, “Leite bruto” couro ecológico, FDL e Crepe.
Mercado: Em expansão, com demandas crescentes pelo couro
ecológico e crepe visando o mercado da moda, atualmente grande em função da
capacidade de oferta e distribuição dos produtores.
Desafios: Desenvolvimento de novas utilizações, beneficiamento
local tanto no modo de produção tradicional quanto de novos modelos produtivos
o que exige a organização da cadeia produtiva em função das determinantes de
exploração exigidas pelos modelos de industrialização da matéria-prima,
capacitação gerencial dos empreendimentos associativos e cooperativistas criação
de nichos.
15.
Princípios Ativos
Produtos:
Pesquisa e/ou
produção de princípios extraídos da biodiversidade amazônica (ex.:
Beta-caroteno da pupunha, Vitamina C do Camu-camu, Pilocarpina do
Jaborandi, etc.)
Mercado: Grande, alto valor agregado.
Desafios: Pesquisa, organização dos produtores comunitários,
produção sustentável, produção sintética,
Plantas
Medicinais Pelo
menos 650 espécies de valor farmacológico comprovado, incluindo Amor Crescido,
Jaborandi, Babosa, Crajiru, Mulateiro, etc.
Mercado: Grande, alto valor agregado, estável no médio prazo.
Desafios: Orquestração da pesquisa, ensino exploração econômica da
indústria e produção sustentável,
biopirataria, falta de arcabouço legal sustentável que defina os limites de
poder e benefícios da jusante e à montante da cadeia produtiva.
16.
Peixes – Piscicultura
Produtos: Pelo menos 20 espécies de valor comercial, incluindo
Tambaqui, Pirapitinga, Matrinchã, Pirarucu, Filhote, Piraputanga, Curimatã,
etc.
Mercado: Grande em relação à oferta atual, baixo valor agregado.
Desafios: Produção sustentável, políticas públicas que incentivem a
piscicultura comercial e o consumo interno, qualidade do processo de
armazenagem e beneficiamento e distribuição, competição predatória, rearranjos
setoriais para aproveitamento dos dejetos para produção de outros bens (couro
de peixes, rações) e, portanto, agregação de valor na base produtiva.
17.
Cacau Orgânico
Produto:
Cacau nativo
Mercado: Grande e com concorrência com o cacau produzido em áreas
no nordeste (Bahia) e com baixo valor
agregado.
Desafios: Produção com qualidade e sustentável, certificação orgânica,
arranjos produtivos locais, distribuição e marketing.
Prof. Erinaldo Barbosa da Silva
[1] Este
texto foi produzido a partir da experiência do Projeto Balcão de Serviços para
Negócios Sustentáveis da Amigos da Terra – Amazônia Brasileira.
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