sábado, 13 de fevereiro de 2016

Aspectos da Comercialização de Produtos Agroextrativistas

Aspectos da Comercialização de Produtos Agroextrativistas[1]


Este artigo é uma análise resultante da observação e prática das ações de comercialização de micro, pequenos e médios empreendimentos, principalmente aqueles sediados na Amazônia Legal.

No contexto amazônico, no quesito “negócios sustentáveis”, a maioria dos empreendimentos é de pequeno porte notadamente impelidos ou estimulados a fornecer para mercados consumidores de matéria-prima mais dinâmicos. Assim, temos de um lado uma cadeia de fornecimento que com inúmeras deficiências, seja da ordem organizacional, produtiva e financeira. De outro, uma conjunto de empresas dispostas a atuarem dentro dos padrões clássicos de compra e venda.  Para conciliar esses dois pólos é necessário promover a organização interna, reestruturação setorial e, principalmente, arranjos produtivos locais para aumentar a oferta de produtos, melhorar processos produtivos com acréscimo de qualidade e diminuir custos de produção, aumentar as possibilidades de parcerias com a distribuição, garantir estabilidade do fornecimento, deixando espaço para criação de marcas próprias – com identidade regional, local -, constituição de mecanismos de financiamento da produção e beneficiamento.

Além disso, outras ações indiretas podem colaborar para obter resultados positivos. Uma dessas ações é o aumento da capacidade dos atores sociais envolvido de influenciarem na definição de políticas públicas.

Nesse enfoque, alguns produtos são mais dependentes dessas ações para se consolidarem no mercado. A Castanha da Amazônia necessita de articulação de vários pequenos e médios empreendimentos para atender o mínimo dos pedidos do mercado interno. Mesmo que se caminhe na direção da industrialização no território de origem da matéria prima, devido a interdependência, torna-se vital o consórcio econômico para a agregação de valor, pois a produtos mais elaborados tais como biscoitos, farinha ou óleo prescinde da especialização dos atores econômicos da cadeia produtiva.

A piscicultura comercial e empresarial abre espaço para o surgimento de outros setores produtivos, tais como: o couro de peixe e ração para animais que são possíveis com planejamento de um arranjo produtivo local e com foco na estruturação econômica e produtiva (construção de tanques, frigoríficos, produção de ração e alevinos).

As polpas de frutas – originárias principalmente de SAF’s - sucos e concentrados que necessitam de métodos de tecnológicos de conservação para preservar as características físico-químicas, o que nem sempre é possível ou viável para pequena escala de produção, logo para lograr sucesso, os empreendedores devem atuar em complementaridade com outras empresas, em geral maiores e com capilaridade nacional, num sistema cooperativado ou sistema de redes de comercialização.

As novas tecnologias de exploração e beneficiamento local necessitam uma maior articulada de modo a envolver elementos de pesquisa, assistência técnica e extensão rural como é caso do látex natural que além da organização dos produtores em torno de suas entidades pressionam as organizações a mudarem internamente que, por sua vez, levam-nas a solicitarem apoio de outras organizações que tenham tecnologia, conhecimento ou acesso aos novos produtos.

Em outros casos (cacau e guaraná orgânico), os arranjos produtivos podem simplesmente representar a organização de pequenos produtores para obtenção de escala, volume e certificação orgânica a fim de atender uma determinada ou determinadas demandas empresariais, que do mesmo modo, dependem da atuação de outras instituições que compõem o “agronegócio florestal”.

De modo geral, trata-se de desafios que os produtos do agro-extrativismo tradicionalmente produzidos e ofertados enfrentam. Contudo, caminhar no rumo da viabilização da oferta de produtos procurados, mas ainda não ofertados em quantidade e qualidade suficiente tais como, sementes para biojóias, óleos vegetais, plantas medicinais fibras para artesanato, madeira certificada de comunidades é um desafio atual. Neste aspecto, investimentos em manejo sustentável, certificação florestal e capacitação das comunidades agro-extrativista torna-se fundamentais para se alcançar efetividade de qualquer plano de expansão da oferta de produtos florestais.


Análise de mercado para os produtos “estrelas” da Amazônia.

1. Frutas Frescas e Polpas de Fruta

Principais produtos: Cupuaçu, Açaí, Bacuri, Graviola, Uxi, Camu-camu,, taperebá.

Mercado: Estabilizado para os empreendimentos que dispõem de condições mínimas para atingir mercados nacionais, notadamente o sudeste e nordeste brasileiro, os demais empreendimentos atendem mercados locais embora possam atingir novos mercados se investimentos em ativos fixos forem realizados, grande, baixo valor agregado, organizado e ávido por novidades á medida que surgem possíveis investidores interessados em transformar essas frutas em bebidas isotônicas, refrigerantes, sorvetes e etc. 

Desafios: Produção com qualidade e produtividade, pois as áreas de plantio de espécies amazônicas se tornou possíveis nos estados do sudeste e nordeste por meio da tecnificação da agricultura, criação de um “consórcio” que certifique a origem do produto como amazônico a fim de diferenciá-lo no mercado, cadeia de frio organizada e distribuição.


2. Madeiras com certificação social e ambiental do FSC ou objeto de manejo sustentável comunitário

Produtos: Aproximadamente 80 espécies, tanto de terra firme quanto de várzea, incluindo Jatobá, Mogno, Cedro, Freijó, Samauma, Paricá, Tatajuba, Massaranduba, Aquariquara, Cumaru, Cerejeira (Torresia Acreana), Tauari, Virola, etc.

Mercado: Demanda pelo produto tem crescido tanto para atender o mercado interno quanto para o mercado externo, a  industria de produção de bens finais busca essa matéria prima para produzir principalmente móveis e casas, o mercado é promissor tanto para empreendimentos de grande quanto de pequeno porte, alto valor agregado.

Desafios: Dificuldade de atingir a produção sustentável, competição de madeira predatória com preços aviltados, o volume da produção de madeira certificada como manejo comunitário não apresenta condições de atender a demanda e  mercado políticas públicas desfavoráveis.

3. Farinhas

Produto: Mandioca (d'água), Pupunha, etc.

Mercado: Estabilizado, com clara tendência a regionalização sendo possível arranjar a produção da farinha amazônica em torno de uma identidade do produto visando aumentar valor agregado e aumentar a participação de vendas em outros mercados.

Desafios: Produção com qualidade, padronização, marketing, escala e distribuição.

4. Fibras, Cipós e Outros

Produtos: Piaçava, Arumã, Curauá, Cipó-titica, Jarina (marfim vegetal), Cebolão, Timbo-açu, Timbori, Graxama, Cipó-jipioca, etc

Mercado: Há procura por parte de artesãos e lojistas da região sudeste, principalmente os estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Os preços da matéria prima são muitas vezes desconhecidos sendo estipulados a partir do confronto do comprador e fornecedor..
Alto valor agregado através de outros produtos.
Definir e atingir uma produção sustentável, entender fibras e cipós como uma linha de produtos passível de rentabilidade e sustentabilidade, treinamento para o beneficiamento e confecção de outros produtos.


5. Castanha-da-Amazônia (ou do Pará)

Produtos: Castanha inteira, com ou sem casca, ou picada

Mercado: Estabilizado, grande, procura concentrada no segundo semestre de cada ano e oferta maior no primeiro semestre, número grande de pequenos atravessadores.

Desafios: Eliminar intermediários desnecessários por meio de contratos de vendas de médio e longo prazo, parcerias e arranjos produtivos locais com cooperativas agroextrativistas  para ganhar escala e diminuir custos entre, principalmente de transporte, aumentar o beneficiamento local com vistas a agregação de valor e diminuição de contaminações com o excesso de manuseio e transporte e marketing.

6. Produtos Artesanais

Produtos: Vasos, cestarias, brinquedos, bijouterias e utensílios indígenas, artefatos em borracha, cerâmicas marajoaras, etc.

Mercado: Em crescimento, baixo valor, em geral os potenciais compradores estão sediados na região sudeste proprietários de lojas de produtos artesanais que em sua maioria desconhece a lógica de relacionamento com comunidades tradicionais e indígenas da Amazônia.

Desafios: Distribuição através de criação de espaços de comercialização coletiva e de múltiplos empreendimentos amazônicos, organização e produção constante.


7.Óleos essenciais e essências

Produtos: Aproximadamente 20 espécies, para usos cosméticos, medicinais e alimentícios, incluindo Copaiba, Andiroba, Cupuaçu, Babaçu, Castanha, Pimenta Longa, Pau-Rosa, etc.

Mercado: Receptivo por novos produto, mas oligopolizado que gera incerteza e insegurança para as comunidade produtoras embora o produto tenha alto valor agregado no local.

Desafios: Dificuldade em atingir a produção sustentável, melhora no beneficiamento e aproveitamento dos resíduos incorporando ou re-arranjado atores econômicos locais para produção de sub-produtos, melhor conhecimento das características organoléticas dos produtos, elasticidade, relacionamento entre comunitários e empresas compradoras.

8. Palmito Pupunha (cultivado), Açaí e em alguns casos Babaçu (manejados)

Mercado: Com variações de consumo ao longo do ano, pouco sensível à questão da origem amazônico, no caso do interno, o que difere um pouco no caso do externo.

Desafios: Produção sustentável, industrialização com qualidade, marketing adequado, formação de consórcios para venda do produto diminuindo, competição predatória com alta aceitação (jussara).

9. Peixes Ornamentais

Produto: Aproximadamente 40 espécies
Mercado: Consolidado e alto valor agregado, exportação.
Desafios:Produção sustentável, estruturação de negócios amazônicos com esse foco e logística, tráfico de espécies.

10. Plantas Ornamentais

Produto: Aproximadamente 60-80 espécies epífitas (bromélias, samambaias, orquídeas), philodendrum e árvores para paisagismo

Mercado: Estabilizado, com tendência ao crescimento. Grande,  alto valor agregado

Desafios: Produção sustentável, organização de empreendimentos amazônicos ou aglomerados de produtores para fornecer ao mercado, logística, certificação e distribuição.

11. Mel

Produto: Mel de abelha nativas ou africanas

Mercado: Grande em relação a oferta atual, estabilizado, baixo valor agregado, mas para o certificado como orgânico a agregação é alta. O mercado é extremamente sensível este produto quando certificado.

Desafios: Produção sustentável com abelhas nativas, estimulo e identificação de novos produtores para aumentar a oferta, marketing, certificação e distribuição.

12. Temperos, Aromas e Corantes

Produtos: Pimenta Cumaru, Açucena, Gergelim, Tucupi, Urucum, Cumaru de Cheiro, Cumacai, Apuí, Casca Preciosa, etc.

Mercado: Grande com abertura para novas utilidades do produto (artesanato, medicina, alimentação), alto valor agregado. Apesar de que o urucum e gergelim possuem fornecedores fora da região amazônica.

Produção:  Produção com qualidade e sustentável,organização de cadeias fornecedoras locais distribuição, desenvolvimento de novos produtos.

13. Guaraná Orgânico

Produto: Guaraná nativo em pó ou em barra.

Mercado: Grande e com concorrência com o guaraná produzido em áreas no nordeste (Bahia)  e com baixo valor agregado.

Desafios: Produção com qualidade e sustentável, certificação orgânica,arranjos produtivos locais para lançamento de novos produtos cuja matéria-prima seja o guaraná amazônico, distribuição e marketing.

14. Látex natural

Produtos: Borracha nativa bruta ou defumada, “Leite bruto” couro ecológico, FDL e Crepe.

Mercado: Em expansão, com demandas crescentes pelo couro ecológico e crepe visando o mercado da moda, atualmente grande em função da capacidade de oferta e distribuição dos produtores.

Desafios: Desenvolvimento de novas utilizações, beneficiamento local tanto no modo de produção tradicional quanto de novos modelos produtivos o que exige a organização da cadeia produtiva em função das determinantes de exploração exigidas pelos modelos de industrialização da matéria-prima, capacitação gerencial dos empreendimentos associativos e cooperativistas criação de nichos.

15. Princípios Ativos

Produtos: Pesquisa e/ou produção de princípios extraídos da biodiversidade amazônica (ex.: Beta-caroteno da pupunha, Vitamina C do Camu-camu, Pilocarpina do Jaborandi,  etc.)

Mercado: Grande, alto valor agregado.

Desafios: Pesquisa, organização dos produtores comunitários, produção sustentável, produção sintética,

Plantas Medicinais Pelo menos 650 espécies de valor farmacológico comprovado, incluindo Amor Crescido, Jaborandi, Babosa, Crajiru, Mulateiro, etc.

Mercado: Grande, alto valor agregado, estável no médio prazo.

Desafios: Orquestração da pesquisa, ensino exploração econômica da indústria e  produção sustentável, biopirataria, falta de arcabouço legal sustentável que defina os limites de poder e benefícios da jusante e à montante da cadeia produtiva.

16. Peixes – Piscicultura

Produtos: Pelo menos 20 espécies de valor comercial, incluindo Tambaqui, Pirapitinga, Matrinchã, Pirarucu, Filhote, Piraputanga, Curimatã, etc.

Mercado: Grande em relação à oferta atual, baixo valor agregado.

Desafios: Produção sustentável, políticas públicas que incentivem a piscicultura comercial e o consumo interno, qualidade do processo de armazenagem e beneficiamento e distribuição, competição predatória, rearranjos setoriais para aproveitamento dos dejetos para produção de outros bens (couro de peixes, rações) e, portanto, agregação de valor na base produtiva.

17. Cacau Orgânico

Produto: Cacau nativo

Mercado: Grande e com concorrência com o cacau produzido em áreas no nordeste (Bahia)  e com baixo valor agregado.

Desafios: Produção com qualidade e sustentável, certificação orgânica, arranjos produtivos locais, distribuição e marketing.


Prof. Erinaldo Barbosa da Silva








[1] Este texto foi produzido a partir da experiência do Projeto Balcão de Serviços para Negócios Sustentáveis da Amigos da Terra – Amazônia Brasileira.

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